Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio

Talvez você esteja se perguntando “por que uma ginecologista está escrevendo sobre o Setembro Amarelo?”

 

O tema suicídio não está relacionado aos que costumo trazer aqui no blog, mas é um assunto de extrema importância a todos. Diariamente atendo pacientes com medos e angústias diferentes, por isso acredito que também é meu dever reservar um tempo para escutá-las e encaminhá-las para tratamento, se necessário. Estar atento aos sinais é responsabilidade de todos!

 

Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a um dado alarmante sobre suicídio no planeta: em 2016, a cada 3 segundos, alguém tentou se matar e, a cada 40 segundos, uma dessas pessoas conseguiu.

 

Naquele ano cerca de 800 mil pessoas colocaram fim as suas vidas, o que tornou o suicídio a 18° causa de mortes. Entre adolescentes, suicídio é a segunda causa de mortes dentro da faixa etária de 15 a 29 anos (a primeira causa é acidente de trânsito). No mundo homens se matam mais que mulheres  ̶  talvez pela maior proximidade com armas de fogo.

 

Setembro Amarelo é uma campanha que busca trazer no diálogo a conscientização sobre o suicídio para a sociedade. O mês de setembro foi o escolhido para a campanha porque desde 2003 o dia 10 de setembro é o dia mundial de prevenção do suicídio, numa iniciativa da International Association for Suicide Prevention. Em 2015, o centro de valorização a vida (CVV) se uniu a associação Brasileira de Psiquiatria e ao Conselho Federal de Medicina para lançar o Setembro Amarelo e dar espaço para discussão pública do tema com reportagens, campanhas e folders.

 

Mustang amarelo

A cor da campanha, o amarelo, foi adotada por conta da história que a inspirou, a história de um jovem chamado Mike Emme. Mike morava nos Estados Unidos, era um jovem alegre, gostava de mecânica e tinha um Mustang amarelo 1968. Em setembro de 1994 Mike se suicidou em seu Mustang amarelo. No dia do seu velório, familiares e amigos distribuíram fitas amarelas e cartões de incentivo para as pessoas que estavam passando por problemas emocionais e precisando de ajuda.

 

Será que os dilemas vivenciados pelos adolescentes estão relacionados a essas estatísticas tão preocupantes?

Sabemos que o suicídio sempre esteve presente na vida da humanidade. Muita gente conhece alguém que vive, viveu ou teme viver o problema, por isso a necessidade de falar sobre o assunto.

 

No Brasil, em 2017, o senado divulgou uma cartilha de 30 páginas sobre o assunto, a fim de orientar pais, professores e profissionais que se dedicam à saúde de crianças e adolescentes. A cartilha está organizada em perguntas e respostas, falando sobre fatores de risco, em especial os transtornos mentais como os de humor (depressão e bipolaridade), os de personalidade (ex.: paranoia) e os provocados pelo uso de substâncias psicoativas (álcool, maconha, cocaína…), além da esquizofrenia. De acordo com a publicação, quem tentou se matar uma vez, corre o risco de recidiva, principalmente os mais impulsivos, agressivos, desesperançosos, desesperados ou desamparados. Fala também que o suicida em potencial costuma deixar pistas, seja aumentando o consumo de álcool ou outras drogas, abandonando atividades habituais e preparando cartas de despedida.

 

Em 1930, o sociólogo Francês Maurice Halbwachs definiu um ponto em comum entre todos os suicídios: a solidão irremediável. Muitos profissionais da área citam a dificuldade que jovens têm de interagir com o outro no mundo real, face a face, apesar de terem grande desenvoltura no mundo virtual.

 

Há pouco tempo Santa Maria ganhou uma sede do CVV (centro de valorização a vida). As escutas anônimas são realizadas gratuitamente pelo telefone 188, por e-mails ou chats do serviço. A pessoa que liga não precisa se identificar, não precisa informar nem idade, sexo ou profissão. Os voluntários que atendem as ligações tem a missão apenas de ouvir as dores de qualquer pessoa, sem julgá-las. Inclusive o metrô de são Paulo aderiu à prevenção e autorizou durante um tempo os voluntários do serviço a darem plantão em duas estações. As procuras nestes locais são voluntárias e visam diminuir as frequentes interrupções do sistema devido a tentativas de suicídio nas linhas. Outra forma de prevenção é a instalação de portas de vidro na beira das plataformas, que se abrem automaticamente apenas quando os trens chegam, impedindo que alguém se jogue nos trilhos.

 

Efeito Werther

A organização mundial da saúde recomenda não divulgar dados sobre suicídios a fim de evitar o chamado “efeito Werther”  ̶  expressão usada em alusão ao romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, publicado na Alemanha em 1774. À medida que ia sendo traduzido pelo mundo, o livro provocou uma onda de suicídios. Goethe tinha 25 anos quando escreveu a história de um amor impossível de um jovem rapaz por uma mulher comprometida. Devastado por essa paixão impossível, o jovem se mata com um tiro na cabeça. Muitos leitores passaram a se vestir como o personagem e alguns chegaram a imitar seu ato de desespero. O “efeito Werther” se repetiu em outros momentos. Após a morte por suicídio da atriz Marilyn Monroe o número de suicídios nos Estados Unidos cresceu 12 %.

 

Em 2017 um estudo foi publicado no JAMA Internal Medicine  ̶  jornal mensal da Associação Médica Americana  ̶  onde foram apresentadas informações de estudiosos que acompanharam de perto a série 13 Reasons Why, da NETFLIX. A trama gira em torno de uma estudante de 17 anos, que, antes de se matar, grava 13 fitas cassetes para 13 pessoas que achava serem responsáveis por conduzi-la a ao suicídio. De acordo com os pesquisadores, três semanas após o lançamento da primeira temporada, aumentaram as pesquisas no Google que incluíam a palavra suicídio e procura por informações sobre “como se matar”. O estudo concluiu que a série aguçou a consciência do público sobre o assunto, o que não é de todo ruim. Para os pesquisadores só não ficou claro se as consultas na internet precederam tentativas reais de suicídio.

 

Qualquer pessoa próxima pode ajudar, não somente médicos. Você pode começar tentando conversar, sem julgamentos. Mas, principalmente, deve orientá-la a buscar ajuda profissional.

 

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